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Guia · como e por que foi feito

Um exame de sangue desenhado como território.

Este documento abre o capô do Atlas Sanguíneo: a decisão criativa de trocar a tabela por um mapa, a matemática do relevo, as técnicas de renderização em Canvas 2D e o caminho de deploy. No fim, o que qualquer pessoa pode reaproveitar.

01A ideia

Um resultado de exame quase sempre chega como uma tabela: linha após linha, um número, uma faixa e uma seta para cima ou para baixo. É eficiente e esquecível. O paciente enxerga a seta vermelha e nada mais; o profissional repete a mesma leitura dezenas de vezes por semana.

A aposta aqui é reenquadrar o mesmo dado como geografia. Se o corpo é um território, então cada painel de exame é uma província, cada biomarcador é um lugar, e a coisa mais importante — o quanto o valor se afasta da faixa de referência — vira a única coisa que os olhos já sabem ler num mapa: o relevo. Acima da faixa, uma montanha. Abaixo, uma bacia. No centro, planície. Ninguém precisa de legenda para sentir que uma montanha "sai do normal".

O gancho de novidade

Apresentar um painel laboratorial como território geográfico navegável, com o relevo codificando o desvio da faixa, no lugar de uma grade de linhas com setas. Não é um scrollytelling nem um dashboard — é um atlas que se explora com travessia e zoom.

O gancho clínico

À beira do leito, o profissional mostra o "mapa" do exame e viaja de um território a outro, explicando cada marcador pelo relevo. Uma âncora de consulta — idade e sexo do paciente — recompõe as faixas de referência e, com elas, o próprio terreno.

02As seis províncias

O atlas é um arquipélago de seis ilhas. A escolha por ilhas separadas (e não um continente único) serve à metáfora de viagem: navega-se o mar entre painéis. Cada ilha carrega uma tinta provincial sutil, somada por cima da cor hipsométrica.

Lipídico
colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos, não-HDL
Glicêmico
glicose, HbA1c, insulina, HOMA-IR
Inflamatório
PCR ultrassensível, homocisteína, ferritina, VHS
Hepático
AST, ALT, gama-GT, bilirrubina
Renal
creatinina, ureia, TFG estimada, ácido úrico
Hematológico
hemoglobina, hematócrito, leucócitos, plaquetas, VCM

03Do número ao relevo

Cada marcador tem um valor (fictício) e uma faixa de referência [piso, teto]. Calculamos um desvio padronizado — quão longe o valor está do centro da faixa, medido em meias-larguras da própria faixa:

meio   = (piso + teto) / 2
metade = (teto − piso) / 2
z      = (valor − meio) / metade        // z ≈ 0 no centro; |z| = 1 nas bordas

O z vira altitude. Dentro da faixa, colinas suaves; passando das bordas, o terreno sobe (pico) ou afunda (bacia), de forma não linear para que os grandes desvios se destaquem de verdade:

relevo = sinal(z) · min(|z|, 3) · 0,12
se |z| > 1,05:  relevo += sinal(z) · 0,075   // salto extra fora da faixa

Esse valor é depositado como uma gaussiana na posição do marcador, sobre um planalto que ergue a ilha acima do nível do mar. Um marcador muito acima da faixa (a PCR, por exemplo) forma o pico mais alto do atlas; um marcador na porção baixa da faixa vira uma leve depressão.

na faixa limítrofe acima (pico) abaixo (bacia)

04Como o mapa é desenhado

Não há imagens. Tudo é gerado em Canvas 2D a partir de um campo de altura — uma grade de ~512×320 valores que soma: um piso oceânico, o planalto de cada ilha, as gaussianas dos marcadores e algumas oitavas de ruído procedural para dar textura à terra e ondulação ao mar.

Tinta hipsométrica

Cada altitude recebe uma cor — do azul profundo do oceano ao verde das planícies, ao marrom das encostas e ao branco dos cumes — como num atlas físico.

Sombreamento (hillshade)

A inclinação de cada célula é iluminada por uma luz a noroeste. É o sombreamento que faz picos e bacias parecerem tridimensionais.

Curvas de nível

O algoritmo marching squares extrai as isolinhas de altitude — as mesmas curvas dos mapas topográficos — e as desenha como vetores nítidos.

Costa e grade

A isolinha do nível do mar vira a linha de costa; uma grade de meridianos e paralelos e uma bússola completam a gramática cartográfica.

A câmera é um simples mundo → tela com centro e escala. Arrastar move o centro; a roda do mouse aproxima em torno do cursor; clicar num lugar dispara um voo suave (interpolação com easing) até o marcador e abre sua ficha. O terreno e as curvas são pré-computados uma vez e apenas transformados a cada quadro — por isso a navegação é fluida mesmo com milhares de segmentos.

05A âncora de consulta

Um atlas de exame que não muda com o paciente seria só um infográfico. Aqui, os controles de idade e sexo alteram faixas de referência reais na literatura — e o campo de altura é reconstruído na hora:

É a afordância que torna a peça usável na consulta: o profissional ancora o mapa no paciente à frente e o terreno responde. Os valores seguem ilustrativos; o que muda de verdade é a moldura de leitura.

06Acessibilidade e responsividade

Nota técnica honesta: no motor de captura headless usado nesta máquina, um punhado de overrides de largura no cartucho móvel só venceu a cascata com largura absoluta e !important (valores em calc() com vw eram descartados). Registrado aqui porque é exatamente o tipo de armadilha que outra pessoa repetiria.

07Deploy

Site estático puro — sem build, sem framework. Versionado em Git e publicado no Cloudflare Pages a partir de uma cópia limpa (sem .git):

gh repo create pmf-labs/atlas-sanguineo --public --source . --push
wrangler pages deploy ./stage --project-name atlas-sanguineo --branch main

Três parâmetros de URL ajudam a demonstrar e capturar estados específicos sem tocar em nada: ?open=<id> abre a ficha de um marcador, ?to=<regiao> enquadra uma província, e ?nosync=1 renderiza o estado-alvo sem animação — pensado para screenshots determinísticos em ambiente headless.

08O que dá para reaproveitar

Dados ilustrativos e fictícios. Este é um objeto de design, sem valor clínico ou diagnóstico. Todos os valores de biomarcadores foram inventados para a demonstração, não pertencem a nenhuma pessoa real e não devem orientar qualquer decisão de saúde. Para interpretar exames de verdade, procure um profissional.
Atlas Sanguíneo · Vitrine Fable #2 MIT · © 2026 Paulo Melo Franco (pmf-labs)